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segunda-feira, 30 de junho de 2008



Há momentos que requerem distâncias temporais para se poder falar sobre eles.
Não porque sejam menos bons, mas porque são grandes. Simplesmente.
Um grande espectáculo. Uma grande companhia.
Aqui fica a possibilidade da espreita.

sábado, 8 de março de 2008

APRENDIZ DE VIAJANTE

Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».

Creio que, na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha quinze anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.

Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.

A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite... Avancei sempre, sem destino certo.

Tudo começou a seguir àquela doença.

Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti. Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, falésias; afastei-me de casa o mais que pude. Vi a mahã eguer-se, branca, e envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a existência.

Dormia onde calhava: no meio das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal onde me dessem abrigo, em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...

E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.

Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas. Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida. Caminha, assim, com a leveza de quem abandonou tudo. Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro da madrugda, se recompõe das aflições da cidade.

A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.

O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único, não se confunde com nenhum outro.

Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra. O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e as trevas, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.

Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento.

Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo.

Al Berto, in O Anjo Mudo



um dia também li num livro «Viajar cura a melancolia»...já foi há muito tempo, sobretudo aquele que é contabilizadinho até à mais ínfima fracção de qualquer coisa, que em absoluto me escapa e no limite, a memória.
o sentido que fez no dia em que o descobri continua, ainda.
é como algumas pessoas. talvez. as que permanecem.

(as questões de realidade ou de virtualidade são interessantes e provocam-me com frequência estranheza. uma mescla intrincada e complexa... em qual dos lados haverá mais vida, ou mais verdade...) porque pensei nisso. porque elaborei universos de associações infindáveis, decidi deixá-lo por aqui. sabe sempre bem degustá-lo uma vez mais.

amanhã verei se me escapou alguma letra.