sábado, 25 de dezembro de 2010

Natal. em todos. em cada um. em todos os dias que são novos.

ouvi. gostei. não tinha. esqueci-me de pedir. alguém me enviou. não resisto a deixar este poema por aqui... (obrigada C.)



O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

acertar o passo. em tempos de paragem. tempos de crise. tempos de ninho: uma perspectiva revisionista.

"Desculpem, doutos homens, estetas,
Espíritos poetas, almas delicadas,
A falsidade do meu génio e das minhas palavras.

Que é a erudição que eu canto,
Que é da vida, o espanto, que é do belo, a graça,
Mas eu só ambiciono a arte de plantar batatas.

Desculpem lá qualquer coisinha
Mas não está cá quem canta o fado.
Se era p'ra ouvir a Deolinda,
Entraram no sítio errado.
Nós estamos numa casa ali ao lado.
Andamos todos uma casa ao nosso lado.

Bem sei que há trolhas escritores,
Letrados estucadores e serventes poetas;
E poetas que são verdadeiros pedreiros das letras.
E canta em arte genuína, o pescador humilde,
A varina modesta;
E tanta vedeta devia dedicar-se à pesca.

[refrão]

Por não fazer o que mais gosto
Eu canto com desgosto, o facto de aqui estar;
E algures sei que alguém mal disposto
Ocupa o meu lugar.

Ninguém está bem com o que tem...
E há sempre um que vem e que nos vai valer;
Porém quase sempre esse alguém não é quem deve ser.

[refrão]

E é a mudar que vos proponho!
Não é um passo medonho em negras utopias;
É tão simples como mudar de posto na telefonia.
Proponho que troquem convosco e acertem com a vida!
"

domingo, 28 de novembro de 2010

do Advento. da(s) esperança(s).



NATAL

Nasce mais uma vez
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens presépio
Mais agasalhado

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Miguel Torga, in Antologia Poética, 1999
Public. D. Quixote, Lisboa

domingo, 21 de novembro de 2010

parêntesis mais ou menos poético - paragem mais ou menos real

final de domingo. a decisão objectiva de uma paragem - querida, necessária - obrigatória. lá fora chove. algures nos sítios, nos corpos, nas ideias faz frio. muito frio.
suspendo os tempos das (pre)ocupações que roubam tempos ao tempo e confronto-me com uma estranha lucidez. clareza. secura. aquela que é própria de quem sabe nomear.
o homem ora diabolizado, ora adorado, na sua humanidade mais profunda. interessante.



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mas qual é a verdadeira alegria?

no dia de S.Francisco, deixo aqui um texto a propósito da alegria, no qual tropecei há alguns anos e por onde gosto de ir parando. uma hipótese de compreensão luminosa para as situações de escuridão.

"Mas qual é a verdadeira alegria?

Regresso de Perúsia e venho para cá numa noite escura. Está um tempo de Inverno, lamacento e frio, a tal ponto que nas bordas de minha túnica se formam pingentes de gelo, batendo-me constantemente nas pernas, e das feridas jorra sangue.

E cheio de lama, de frio e de gelo, chego à porta e, depois de ter batido e chamado durante muito tempo, um irmão vem e pergunta: Quem é? Eu respondo: Frei Francisco. E ele diz: Vai-te embora. Não são horas de andar por aí. Agora não entras.

E àquele que insistisse ele responderia novamente: vai-te embora, não passas de um pobre e ignorante; seja como for não entras; somos tantos e tais que até nem precisamos de ti.

E eu estou de novo junto à porta e digo: Por amor de Deus, recebei-me esta noite. E ele responderia: Não. Vai para o asilo dos leprosos e pede lá guarida.


Afirmo-te que se eu tiver paciência
e não ficar abalado,
é nisto que reside a verdadeira alegria
e a verdadeira virtude
e a salvação da alma."


S. Francisco de Assis.

in, Quinze dias com S. Francisco de Assis, Frère Thaddée Matura, Paulus.

domingo, 26 de setembro de 2010

dos desafios. dos próximos tempos.

no ano lectivo passado, entre outras leituras, deambulei muito por aqui...
deixo o registo de umas passagens muito breves, daquele foi durante meses (e continua a ser) o objecto de provocação ou desafio espiritual. pedaços de História escritos e descritos na primeira pessoa, com uma intensidade avassaladora e subjectividade "objectiva" de quem se deixou "tocar" pela Vida, com toda a profundidade. e terá acordado definitivamente.
este ano vem a continuação, ou melhor, o meu primeiro tropeço (Cartas 1941-1943)


Da apresentação de DIÁRIO (1941-1943)de Etty Hillesum

«Foi novamente como se a Vida, com todos os seus segredos, estivesse próxima de mim, como se eu a pudesse tocar… E ali sentia-me imensamente segura e protegida. E pensei: «Como isto é estranho. É guerra. Há campos de concentração. Pequenas crueldades amontoam-se por cima de pequenas crueldades. Quando caminho pelas ruas, sei que, em muitas das casas por onde passo, há ali um filho preso, e ali um pai refém, e ali têm de suportar a condenação à morte de um rapaz de dezoito anos.» E estas ruas e casas ficam perto da minha própria casa.

Sei do grande sofrimento humano que se vai acumulando, sei das perseguições e da opressão… Sei de tudo isso e continuo a enfrentar cada pedaço de realidade que se me impõe. E num momento inesperado, abandonada a mim própria – encontro-me de repente encostada ao peito nu da Vida e os braços dela são muito macios e envolvem-me, e nem sequer consigo descrever o bater do seu coração: tão fiel como se nunca mais findasse…»


4ªfeira, 18 de Junho de 1941
«(…) A vida em si deve permanecer a fonte primitiva, nunca um outro ser. Muitas pessoas, especialmente mulheres, vão aí buscar a sua força, em vez de a irem buscar directamente à vida, é esse outro ser a sua fonte e não a vida. Isto é tão distorcido e tão antinatural quanto é possível.»


6ª feira, 5 de Setembro de 1941
«Sinto-me tal e qual como alguém recuperando de uma doença grave. Ainda com a cabeça leve e mal se tendo nas pernas. Ontem foi realmente péssimo. Creio que não vivo de modo suficientemente simples por dentro. Que me excedo em «digressões», em bacanais do espírito. Também pode ser que me identifique demasiado com tudo aquilo que leio e estudo. Alguém como Dostoiévski arrasa-me sem eu saber como. Preciso mesmo de me tornar mais simples. Deixar-me tornar um pouco mais viva. Não querer ver imediatamente resultados na minha vida. O remédio sei-o agora. É preciso que me encolha a um canto no chão, e assim, encolhida, escute o que se passa dentro de mim. A pensar nunca resolvo o assunto. Pensar é uma bonita e orgulhosa ocupação quando se estuda, mas não é a pensar que uma pessoa consegue «sair» dos estados de alma difíceis. Nesse caso, outra coisa tem de acontecer. Então deve ser-se passivo e escutar. Estabelecer outra vez contacto com um bocadinho de eternidade.»

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

o LIVRO. de José Luís Peixoto

De um escritor que muito admiro.

A emigração portuguesa como ponto de partida.

Uma crítica excelente.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

utilidades aos «comandantes» de si.

Cheguei nas «lonas». O cansaço polvilhado de receio e de consciência da dificuldade. A esperança no chão. Um fim-de-semana de lamento de mim para comigo... Com alguma disciplina e uma paragem "disciplinada", surgiu a pergunta óbvia: quem é que realmente "comanda" a minha vida, eu, ou tudo o que me é exterior?

Com a pergunta certa, a resposta vai-se tornando clara. Caminho traçado!
Vivi muitas vidas por estes dias. Na decisão, ou na clarificação do evidente, pude finalmente descansar e "voltar a casa"...


das minhas leituras de verão. das lições do fim-de-semana. muito interessante.

«Ao cozinhar, não olheis as coisas habituais com um olhar habitual, com pensamentos e sentimentos habituais. (…) se preparais um pobre cozido de ervas selvagens, que ele não vos inspire nenhum sentimento de desgosto ou desprezo, e se preparais uma rica sopa cremosa que o vosso coração não pule de alegria. Onde não existe apego, como pode haver hostilidade? Assim, quando vos ocupardes de uma matéria grosseira, não a trateis sem respeito; manifestai para com ela a mesma diligência e atenção que teríeis em presença de um objecto precioso. É importante que o vosso espírito não mude segundo a qualidade do objecto. (…)»

in, TENZO KYÔKUN - Instruções para o cozinheiro Zen. Assírio & Alvim (2010)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

da Rentrée. depois das férias. e muitos outros tempos.

Já lá vai tanto tempo… Outras actividades. Outras preocupações. Outras conversas. Os pensamentos. Os acontecimentos mais velozes que o teclar dos dedos. As emoções. O que ficou por dizer… perdeu a sua vez. Viver ou escrever? Viver, claro! Embora a escrita traga vida consigo, escolhi a primeira.

Os tempos de pousio. Entrelaçados com os tempos (e desperdícios) do «Livro das Caras». Novas apropriações. O desafio da tecnologia. As adaptações. As acomodações.

Na mochila ficou a colecção de sorrisos. Afectos. Conversas. Paisagens. Céus. Joguinhos de sudoku. Os jogos criativos da linguagem. As gargalhadas até à dor muscular. A vontade de regressos, melhor, de novas partidas.

Eis-me aqui. Outra cor. Outra arrumação. A imagem não é minha… mas poderia ser.
Bom trabalho para todos os que iniciam novas temporadas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

iniciativas da época...nos desafios da contemporaneidade.

em início da quaresma, um novo projecto dos Jesuítas. para quem quer. para quem precisa. ou apenas para disfrutar de uns minutos. de paz diária.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Revisitação. Dos dias assim.

porque hoje está frio. fora de casa. e dentro dela.
porque é Inverno. porque gosto do Inverno, pertenço-lhe.

está mesmo muito frio. sinto.

tenho uma montanha de coisas por fazer. por arrumar.

sou obrigada a olhar para os objectos esquecidos. para os CDs das músicas que consumia fervorosamente. esta era uma delas. há uns bons anos. até que o CD , de desgaste, ficou riscado. nunca mais arranjei outro. não foi necessário. dei lugar a novos.

esta música continua a ser de Inverno, ainda que a escute no pino do Verão.

continua a provocar a mesma viagem aos centros das coisas fundamentais.

e gosto destas viagens.

o tempo enlouqueceu. faz muito frio. gosto do aconchego que o Inverno me traz. porque há dias assim.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

em dia de S. Valentim...

uma lembrança. um filme fantástico. uma tarde bem passada.

que a vida nos toque onde deve. de forma mais ou menos convencional. até às entranhas... sem necessidade de uma última cena.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

il Signore (ti) ristora

uma música/frase que cruza os meus pensamentos com alguma frequência.

o início do encontro ibérico de Taizé a decorrer no Porto por estes dias.
a memória revisitada. fico com a minha condição de peregrina...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

há momentos assim.

em casa. fora dela. em mim.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

pedaços de paraíso. retalhos de eternidade.



Hildegard von Bingen foi-me apresentada há uns anos, num ensaio de coro da faculdade.

o coro não foi muito longe... nunca chegámos a apresentar a peça que ainda hoje sei de cor. a meia dúzia de conversas, audições, ensaios e a admiração por esta mulher difícil de conhecer e descrever ficou.

há muito que não ficava horas perdidas a ouvir. ontem, hoje, não sei se pela intensidade dos dias, se pela densidade das conversas, se pelo cinza do céu... fiquei cheia de saudades.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

ideias mais ou menos poéticas. mais ou menos reais.




passar por casa.
ver a vida na sua natural simplicidade.
nos seus ciclos.
no dia certo que virá.

o tempo que pede tempo.
a planta que fura pacientemente a terra.

a tia que,com o sofrimento bem marcado na cara, olha no fundo dos meus olhos e diz:«minha filha cuida de ti».

o amor, a dor, a coragem...por vezes tão antagónicos. outras, tão cúmplices, parceiros de loucura.

a vida que é. apenas. sem pretensões. com toda a força e toda a beleza.

o sublime é isto, não é?


passar por casa. ficar em casa. trazer a casa comigo.

sou a própria casa.

estou sempre em casa. estou em paz.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ainda a propósito. dos propósitos

há uns bons meses ouvi um texto simplesmente fabuloso.
atingiu-me. tocou-me com a fúria com que o granizo atinge o vidro em dias de temporal. o vidro não quebrou. ficou o desafio de uma paragem determinada e frequente.
os inícios de ano (civil) são um pontinho de paragem. na verdade, o que acontece depois, é estruturalmente continuidade. as mudanças são pequeninas e com algumas restrições... ainda assim, valem a pena os compromissos. as paragens. as inspirações.
depois de partilhado com alguns amigos oralmente, aqui fica o registo escrito.


"O nosso grande medo não é não termos maturidade para enfrentarmos as tarefas da vida.
O nosso grande medo é o de sermos imensamente ricos.

O que receamos é a nossa luz e não as nossas trevas.

Perguntamo-nos:«Quem sou eu para poder ser luminoso, irresistível, dotado e fantástico?»
E quem és tu para o não seres?

Quando te fazes pequeno não serves o mundo. Não tem nada a ver com a inspiração divina quando te atrofias, para que à tua volta os outros não se sintam inseguros. Quando deixamos a nossa luz interior brilhar, damos inconscientemente aos outros a autorização para fazerem o mesmo.

Ao libertarmo-nos dos nossos medos, permitimos que a nossa simples presença liberte os outros."
Discurso de Nelson Mandela, 1994

domingo, 17 de janeiro de 2010

dos propósitos.

ainda não escritos...há tempos pensados. agora.
simplificar. simplificar. simplificar.


LESS is more

domingo, 10 de janeiro de 2010

2010

PARA TODOS, O DESEJO DE UM ANO BOM.
VIVIDO TODOS OS DIAS.
UM DIA DE CADA VEZ.

NA ESSÊNCIA DAS COISAS. SIMPLES.




(depois dos esquecimentos dos cabos, palavras-passe, das distâncias, do mal-estar, dos excessos...de volta à (a)normalidade do quotidiano. em pleno.)