"Desculpem, doutos homens, estetas,
Espíritos poetas, almas delicadas,
A falsidade do meu génio e das minhas palavras.
Que é a erudição que eu canto,
Que é da vida, o espanto, que é do belo, a graça,
Mas eu só ambiciono a arte de plantar batatas.
Desculpem lá qualquer coisinha
Mas não está cá quem canta o fado.
Se era p'ra ouvir a Deolinda,
Entraram no sítio errado.
Nós estamos numa casa ali ao lado.
Andamos todos uma casa ao nosso lado.
Bem sei que há trolhas escritores,
Letrados estucadores e serventes poetas;
E poetas que são verdadeiros pedreiros das letras.
E canta em arte genuína, o pescador humilde,
A varina modesta;
E tanta vedeta devia dedicar-se à pesca.
[refrão]
Por não fazer o que mais gosto
Eu canto com desgosto, o facto de aqui estar;
E algures sei que alguém mal disposto
Ocupa o meu lugar.
Ninguém está bem com o que tem...
E há sempre um que vem e que nos vai valer;
Porém quase sempre esse alguém não é quem deve ser.
[refrão]
E é a mudar que vos proponho!
Não é um passo medonho em negras utopias;
É tão simples como mudar de posto na telefonia.
Proponho que troquem convosco e acertem com a vida! "
4 comentários:
Boa tarde,
Fiquei com esta frase na cabeça a repetir: “andamos todos uma casa ao nosso lado”.
Obrigado pela reflexão sobre o “sentido”.
Com amizade,
O Regedor
Boa noite Regedor!
Essa frase é, de facto, muito forte e desafiadora...
Somos sempre muito parciais e não temos normalmente distância, física e temporal, para ver ou aceitar a porta com clareza.
Vivam as inquietações, a busca de sentidos. Continuemos a caminho.
Obrigada.
Um abraço.
wass
Sabes, pergunto-me se a porta correcta é já aqui ao lado...
S
Querida S,
não sei se há portas certas ou não.
Há portas que, quando abertas, nos fazem entrar em casa e outras que nos tornam reféns da rua e nos fecham do lado de fora.
Não sei muito de portas, mas acredito que não ficam abertas ou fechadas «para sempre».
Enviar um comentário