sábado, 8 de março de 2008

APRENDIZ DE VIAJANTE

Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».

Creio que, na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha quinze anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.

Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.

A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite... Avancei sempre, sem destino certo.

Tudo começou a seguir àquela doença.

Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti. Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, falésias; afastei-me de casa o mais que pude. Vi a mahã eguer-se, branca, e envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a existência.

Dormia onde calhava: no meio das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal onde me dessem abrigo, em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...

E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.

Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas. Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida. Caminha, assim, com a leveza de quem abandonou tudo. Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro da madrugda, se recompõe das aflições da cidade.

A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.

O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único, não se confunde com nenhum outro.

Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra. O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e as trevas, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.

Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento.

Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo.

Al Berto, in O Anjo Mudo



um dia também li num livro «Viajar cura a melancolia»...já foi há muito tempo, sobretudo aquele que é contabilizadinho até à mais ínfima fracção de qualquer coisa, que em absoluto me escapa e no limite, a memória.
o sentido que fez no dia em que o descobri continua, ainda.
é como algumas pessoas. talvez. as que permanecem.

(as questões de realidade ou de virtualidade são interessantes e provocam-me com frequência estranheza. uma mescla intrincada e complexa... em qual dos lados haverá mais vida, ou mais verdade...) porque pensei nisso. porque elaborei universos de associações infindáveis, decidi deixá-lo por aqui. sabe sempre bem degustá-lo uma vez mais.

amanhã verei se me escapou alguma letra.

1 comentário:

Lince disse...

Quase de propósito, encontro este post sobre viagens e viajantes, despojamentos e visões genuínas (?) do mundo. Um dos melhores filmes que vi em muito tempo retrata um pouco a mesma questão.
Faz-me pensar...
Viajar... descobertas e mais descobertas, maneiras de ver o mundo diferentes de quaisquer outras, diferentes das de quaisquer outras pessoas...
Faz-me pensar...
Há permanências (sedentarismos?) que se querem sempre por perto. Não as dos objectos, claro está, a das pessoas.
Talvez o melhor seja unir os dois mundos... partir à descoberta das melhores experiências que por esse mundo fora nos aguardam, mas com a(s) pessoa(s) importante(s). Um nomadismo com sabor a lar!

(Ah, e de facto escaparam umas letritas... )