sábado, 27 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Era uma vez. Uma vez por ano. Na mais profunda noite.


































parece sempre que foi ontem. e no fundo, quase terá sido... há conversas quase repetidas em torno desta presença quente. ano após ano. partilhas de vidas enriquecidas de tempos e memórias. muitas memórias. e é sempre tão bom ouvir!
há uma parte da magia do Natal que passa invariavelmente por aqui. pelo sentido profundo da partilha, muito para lá da corrida neurótica às lojas, porque sim. muito para lá de todo o esvaziamento muitas vezes resolvido com um sms, porque não há tempo nem paciência. sinais dos tempos. ou da falta deles.
nesta noite, todos os desejos de tudo de bom parecem fazer sentido. nada se deseja a... fica-se em companhia, aquela pouco conseguida, talvez, ao longo do ano e deseja-se com... assim seja.
ainda assim, não sei se resistirá ao bicho papão da crise, da globalização, da tecnologia (...) e a todos os outros bichos nomeados. ou inventados. em nome dos tempos modernos... e não se transforme numa espécie de rave de verão, versão inverno. a dada altura estivemos quase lá.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Em jeito de propósito... ou não. Enquanto há natais que se preparam e outros que acontecem.

há vidas interessantes. pessoas marcantes. tempos polvilhados de eternidade (gosto muito desta palavra). partilhas importantes ou fundamentais, sem as quais alguns momentos seriam vazios de conteúdo e acima de tudo, de sentido.
são essas partilhas, em conversas, leituras e outras estórias, porque plenas, que permitem que o caminho continue. siga o seu curso "natural", com frequência vedado, mas sobre o qual, se vai fazendo alguma luz.
fez tanto sentido ter ouvido este excerto, numa pausa destes tempos desgastantes, como faz cada vez que insisto em procurar o sentido destas palavras. tem sido a companhia orante. não resisto a deixá-la por aqui. obrigada M.
«Maturidade. Aquele instante misterioso que nenhum homem alcançará antes do tempo, mesmo que todos os mensageiros do céu descessem para o ajudar. Assim sucede nas antigas histórias com a série das aparições: todas igualmente eloquentes e ineficazes: a pomba, a raposa, a velha com o molho de silvas. Contudo dizem todas a mesma coisa, repetem e insistem no mesmo aviso. Seria fácil entrever por baixo das penas, do pêlo ruivo ou dos andrajos o relâmpago azul-celeste do trajo da Parca…

Maturidade: nem fulminações nem vozes. Só um precipitar inesperado, quer dizer: biológico: um ponto que deve ser tocado por todos os órgãos ao mesmo tempo para que a verdade se possa tornar natureza.

É como acordar uma manhã e saber uma língua nova. E os sinais, vistos e revistos, tornam-se palavras.

Maturidade é destrinçar continuamente do mundo, que de todos os lados solicita e pressiona (até mesmo e sobretudo o mundo da beleza); só o que é nosso desde as origens, «portanto por destino».
É uma contínua resposta ao Tentador no alto da montanha.»
Cristina Campo, in Os Imperdoáveis

domingo, 16 de novembro de 2008













um miminho que chegou por correio há algum tempo e sabe muito bem nesta época do ano...chá quente para quebrar os frios. os de fora e os outros. obrigada M.

sábado, 15 de novembro de 2008

Construção de uma BD culinária














um intenso sol a entrar em casa. uma luz cálida a fazer-me sorrir. mais um fim-de-semana metropolitano. metropolitano mas nem por isso cosmopolita (a ver vamos). sabe bem acordar cedo e sentir a poesia matinal, quando o silêncio ainda se escuta, enquanto meia cidade se recompõe das aflições. um café delicioso no sítio do costume. um scone com manteiga por favor. os jornais à minha espera. mais crise e contestação e propostas de fuga para o paraíso, uns filmes para ver. a compra das frutas e legumes na mercearia cá do bairro. e voltar a casa. cozinhar.

ainda a manhã não tinha acabado e já muita informação tinha cruzado o céu dos meus pensamentos. a vontade era muito pouca.

a culinária é uma arte na qual não empreendo a totalidade das minhas energias, mas na qual me aventuro com frequência… é mais um acto criativo, que implica entrega, tempo, paciência e mais uns pós. à volta da criação, a entropia. e o caos. e continua a não apetecer.

depois das lamentações sem muro lá vim eu. comecei na minha tarefa necessária. ou melhor, absolutamente imprescindível. posso cair. desfalecer. ter fome ou sede. se não cuidar de mim, em primeira instância, ninguém o fará. deve ser isto a autonomia… e há dias em que não apetece nada ser autónomo.

continuei a desfiar as pontas deixadas soltas no céu e no momento em que dei início à árdua tarefa, várias foram as imagens que surgiram. esta é uma delas. inspiradora. afinal, ter de cozinhar, mesmo sem vontade, por vezes vale o esforço.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Pintura de luz







Metamorfoses de Outono

estou sentada e algo vai acontecendo a cada instante. sentada fico e aprecio esta lentidão veloz que me acompanha.

a luz trémula e pouco segura do outono, por vezes interrompida pela nuvem que passa...a noite que chega mais cedo e o tempo que urge.

o reflexo de todos os movimentos da rua na minha parede, no meu corpo. e esse tempo que urge.

o cabelo que cai porque é outono e os cabelos brancos que nascem porque é outono. ou porque me vou transformando lentamente. em outono.e o tempo que urge.

aqui. agora sentada na minha cadeira.

as decisões profundas e os projectos mais sérios são do frio e da montanha. do tempo que tem outros compassos. do tempo que tem tempos outros. hoje é um dia de desafio. é um dia para aprender sobre o tempo, sobre a urgência, sobre o amor.

é um dia para lembrar a humildade perante a vida. querer aprender com isso. e sorrir. porque tenho tido tempo...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Escuridão polvilhada de pontinhos. De luz.

ontem foi assim. melhor...ontem acabou assim e foi deste modo que o hoje teve início.

aqui fica mais um apontamento, bem modesto é certo, dos Sigur Rós, desta vez num concerto em Lisboa (Campo Pequeno).

o registo nem sempre foi este, calmo e intimista, as minhas favoritas ficaram por cantar à espera de uma próxima vez (...) o espaço não foi o melhor, mas valeu muito a pena...

para combater a «crise» ou pelo menos lidar com ela, nada como fazer uma pausa que traga uns minutos de verdadeira inspiração e encher-me do ar que preciso para prosseguir viagem... com tudo aquilo que faz parte do quotidiano (com relativa frequência cheio de coisinhas sem interesse e obstáculos burocráticos...).

aproveitemos.

sábado, 8 de novembro de 2008

Cenas caseiras dos últimos tempos II














a cor na versão material das linhas. as experiências que me aguardam. estar perdida no meio da cor, das texturas, dos padrões... humm que bela manhã de sábado chumbo...pelo bairro de Campo de Ourique.
pena é que o pensamento seja muito mais rápido que as mãos...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Cenas caseiras dos últimos tempos I






















quando acidentalmente parece que não há muito para fazer... inventa-se, ou não!
há afinal, sempre e ainda, ideias.
algo por concluir, por deixar dito, por ser escrito... à espera de ser pintado, preso, amarrado ou definitivamente destruído.
há sempre coisas à espera de serem outras.

domingo, 12 de outubro de 2008



há dias assim. e sensações destas!
dias de mudança. de fim. de princípio. de fim-de-semana. de chuva. de outono que se instala. de folhas amarelas. o que não interessa cai...

há histórias assim (também). algumas delas.

compro um livro, de bónus vem um cd sem quasquer indicações e a música é boa. entranhou-se ou foi-se entranhando.

li o livro. ouvi a música vezes sem conta.ilustrando este dia, hoje, é com música.há livros de inverno, ou pelo menos de outono. assim como as pessoas. os sentimentos. as memórias. as ligações.

deixo o apontamento de uma Barcelona revisitada. do vento. das sombras.

quem ainda não leu...aproveite. está na altura certa.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Presépio privado I, II, III, IV

















Já lá vai um mês...Faço tentativas de aproximação a uma assiduidade diferente, nem sempre conseguida (à falta de melhor, o final do mês, como o post passado, até não vai muito mal)...
Os inícios são, para mim, períodos algo conturbados, não porque os considere objectivamente difíceis, mas porque aproveito para começar! Em rigor, nunca retomo nada. Procuro outras dimensões e o ponto em que supostamente fiquei acaba por ser o horizonte passado, para que não esqueça... Fica sempre um mundo inteiro para dirigir. E para digerir também.
Setembro acaba por ser o mês dos projectos, dos objectivos afirmados numa espécie de desejo, de esperança, de votos para um ano de trabalho que se avizinha sorrateiramente bom, desfiante, trabalhoso e cheio de surpresas por revelar...
Setembro é para mim o Janeiro de muitos. Ainda que seja uma mistura nem sempre fácil de calor com muita nostalgia.
De volta, há já um mês, há muito de positivo e grandioso nas vidas com quem vou partilhando pedaços de tempo. Pedaços de memória. Pedaços de conversas, chá e tardes bem passadas.
Para trás fica algo grande como a montanha, que tenho normalmente como o mais privado e poético de todos os presépios. Basta anoitecer. E as natividades, essas, sempre que estou disposta a isso. Nalgum lugar cá dentro...

domingo, 31 de agosto de 2008

Faço minhas estas palavras...


















há uma semana foi assim...

deambulações entre o documentário e a ficção. pontas soltas. o cruzamento permanente de histórias pouco lineares. montanha. rio. interior. uma música pouco comum nestas andanças. as procissões. os afectos. vidas. a equipa de rodagem que entra no filme. a história das vidas. reais? ou nem por isso...

a ver.

neste final de Agosto. também querido.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Fugacidades ou Fuga às Cidades #2 (o possível)

Qualquer coisa que ainda faltava para completar o trecho imagético...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008































ontem foi assim.
pontos de passagem. momentos de paragem entre as estações ferroviárias da Covilhã e Guarda.
um desafio paisagístico a não perder. a solo. em família. com amigos.
uma hora e um quarto de lentidão relativa... e qualquer coisa de imenso.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008



Sigur Rós - Góðan Daginn

em tempos de descanso...
sabe sempre bem entrar noutros universos.
sabe sempre bem deixar que outros universos entrem também e passem a fazer parte.
talvez seja esta a medida do tempo. e do crescimento.
talvez seja esta a magia de viver. e saborear cada dia como o mais precioso dos presentes.
deixo aqui este apontamento inspirador com o voto permanente de um bom dia.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

















Excertos de uma passagem ou efeitos de permanência
[Via da Prata_ Caminho de Santiago_ Ourense a Santiago de Compostela]
Um presente para aqueles que alguma vez caminharam a meu lado. E sabem quem são.

OS AMIGOS

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino de Mendonça, in De Igual Para Igual

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Para uma preparação de férias... e o desafio de outras paragens. outros ângulos. outras lentes. uma outra lucidez.
“Qual a minha experiência de vida? Nenhuma. Qual é a lei que extrais da vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silêncio, mais doirada e frenética que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos valor, e a coisas a que não damos valor. E entretanto ao nosso lado passa o tropel mágico, desesperado e caótico. Ali fora desabam os séculos e a torrente misteriosa que leva consigo estrelas em vez de calhaus. O jacto de portento vem do infinito, levando consigo a alma, o universo, o lógico e o ilógico, o absurdo e Deus.

Atrás deste assombro há outro assombro – e depois outro assombro ainda.

Uma vida resume-se em duas linhas, sintetiza-se em dois ou três factos. Se a vida fosse só isso não valia a pena vivê-la. A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos. Se nos contentamos com a superfície, não há nada mais estúpido – se nos quedamos a contemplá-la faz tonturas. É por isso que eu teimo que a Morte não tem só cinco letras, mas o mais belo, o mais tremendo, o mais profundo dos mistérios. Prepara-te.

Cada vez descubro em mim um subterrâneo mais fundo.

O problema capital da vida é o problema da morte. Ele resolve tudo. Não há factos isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro acontecimento. O inconsciente não pode criar o consciente. É impossível dar um passo a que não suceda outro passo. A vida gera a morte – a morte gera vida. Mas que vida?

Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e contigo, ó espanto, mas defronto-me com o enigma, encarniço-me e saio daqui esfarrapado, despedaçado – mas teimo e hei-de vencer-te. Não quero morrer de vez. Não quero perder a consciência do universo nem a sensibilidade do universo. Eu sou o nada, tu és o infinito – hei-de por força vencer-te!

E no entanto sinto-me tocado de hesitação e de dúvida. Do que tenho saudades é desta vida. Ao que eu aspiro é a esta vida. O gesto que o moribundo faz ao arrepanhar o lençol é um gesto de náufrago.

De um lado a matéria, do outro o espírito. De um lado a consciência, debate, luta, do outro a impassibilidade, a fatalidade inexorável. Nenhum grito a perturba. De um lado a vida gasta num segundo, do outro a sucessão ininterrupta dos séculos, indiferente e eterna. Como o acaso é atroz, a não ser que outra coisa nos espere.

Se não nos detivéssemos com palavras, se avançássemos, todos ao mesmo tempo, esquecendo o que é inútil, para esta coisa que nos devora, subjugávamo-la. Conquistávamo-la por uma vez, por maior que ela fosse. Mas nenhum de nós se atreve e passamos a vida a fingir que não existe.

Mas eu sinto-o, eu prevejo-o. Eu sei perfeitamente que toda a discussão é inútil. Vai chegar o momento que entre mim e ela se interpõe o sonho…”

Raul Brandão, in Húmus