terça-feira, 20 de novembro de 2012

Peregrinação

Liga o braço longe a uma estrela
Prende distâncias que teus pés ignoram
as árvores cruzam desse modo os seus ramos
enquanto as multidões falam
de milagres
que não viveram


José Tolentino Mendonça, in Estação Central

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Dos Carnavais. Dos disfarces. Das (im)permanências.

Um país meio cheio, meio vazio, meio a trabalhar, meio em ‘modo pausa’, meio triste, meio velho… Mergulhado nas crises e indecisões bolina como quem quer soltar amarras e, no entanto, pensa por cabeça alheia. Não há caminhos, nem receitas pré-cozinhadas e a realidade afigura-se complexa, difícil. Difícil de apreender, viver, resolver, com “soluções” que permitam devolver a paz aparentemente cada vez mais distantes.

Inventem-se as festas. Vivam-se as festas. Finja-se a boa disposição. Faça-se humor. E (não) seremos salvos. Paulatinamente algo vai corroendo, sendo corroído e agita-se o lume brando.
Vamo-nos disfarçando permanentemente de disfarçados e quase nos tornamos individual ou coletivamente nos próprios disfarces.

É necessária coragem. Coragem de pensar, sentir, aceitar e assumir a responsabilidade individual pela vida que é, sem que as restrições exteriores sejam condicionamentos…



«Criamos uma máscara para se encontrar com as máscaras dos outros. E então perguntamo-nos por que não seremos capazes de amar, e por que nos sentimos tão sós.» ESHIN

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

De ontem. Redemption song.

"Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds..."
Original de Bob Marley. Uma interpretação fabulosa.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Para que nada falhe.

da agenda de desenvolvimento sustentável.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

2 0 1 2 . BOM ANO

ano temido. ano querido. que seja!
bisexto. mais um dia. mais uma oportunidade de ser.

ano peneira. o desafio de cada dia a ser olhado pelo essencial.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

respiro

na estação que vai mudando. crescendo. alargando a luz. devagar.
um pouco de voo. pelo sonho. pela essência.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

finalmente...

depois de muitas tentativas, casa cheia sem lugar para mim... um dia de sessão contínua resolveu o problema. belíssimo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

apontamentos maiores

tropecei na renovada Agenda Cultural (Lisboa) destes mês e encontrei umas palavras soltas de José Tolentino Mendonça, desafiado por Rui Cintra, num jogo de associação livre. não resisto a deixar na algibeira a mão cheia de sentidos. paragens. apontamentos.


AMOR
O amor é talvez a fronteira mais íntima de cada ser humano. É ao mesmo tempo a viagem mais longa que cada um de nós pode fazer. O amor implica uma consciência de si e a capacidade de estabelecer uma relação com o outro.
Simone Weil dizia: «no princípio era a relação».

PALAVRA
A palavra, juntamente com o silêncio, é talvez o grande sintoma da nossa humanidade. As melhores palavras são aquelas que se parecem com o silêncio.

PAIXÃO
A vida sem paixão é uma vida diminuída. A paixão é o que nos dá o sentido da transcendência. Na paixão há emoção, entrega e sentimento de si. A paixão é a condição necessária para a experiência da plenitude e também para a experiência da solidão.

SACRIFÍCIO
O sacrifício é uma palavra inactual, é talvez a palavra que mais precisamos de descobrir, porque é uma palavra da gramática do amor, ao contrário do que se pensa. Não há amor que não inclua, no mais nuclear da sua vivência, a noção e a prática do sacrifício. O sacrifício é essa capacidade oblativa de se fazer dom e é a capacidade de amar até ao fim, até às últimas consequências. O sacrifício é muito impopular na nossa cultura, mas é algo que precisamos de voltar a pensar.

FINITUDE
A finitude é aquilo com que nos debatemos todos os dias. Todos os dias começam e acabam e isso não nos é indiferente. Por vezes é tranquilizante, mas, por outro lado, amplia a sede de que temos de infinito.

sábado, 1 de janeiro de 2011

sábado, 25 de dezembro de 2010

Natal. em todos. em cada um. em todos os dias que são novos.

ouvi. gostei. não tinha. esqueci-me de pedir. alguém me enviou. não resisto a deixar este poema por aqui... (obrigada C.)



O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

acertar o passo. em tempos de paragem. tempos de crise. tempos de ninho: uma perspectiva revisionista.

"Desculpem, doutos homens, estetas,
Espíritos poetas, almas delicadas,
A falsidade do meu génio e das minhas palavras.

Que é a erudição que eu canto,
Que é da vida, o espanto, que é do belo, a graça,
Mas eu só ambiciono a arte de plantar batatas.

Desculpem lá qualquer coisinha
Mas não está cá quem canta o fado.
Se era p'ra ouvir a Deolinda,
Entraram no sítio errado.
Nós estamos numa casa ali ao lado.
Andamos todos uma casa ao nosso lado.

Bem sei que há trolhas escritores,
Letrados estucadores e serventes poetas;
E poetas que são verdadeiros pedreiros das letras.
E canta em arte genuína, o pescador humilde,
A varina modesta;
E tanta vedeta devia dedicar-se à pesca.

[refrão]

Por não fazer o que mais gosto
Eu canto com desgosto, o facto de aqui estar;
E algures sei que alguém mal disposto
Ocupa o meu lugar.

Ninguém está bem com o que tem...
E há sempre um que vem e que nos vai valer;
Porém quase sempre esse alguém não é quem deve ser.

[refrão]

E é a mudar que vos proponho!
Não é um passo medonho em negras utopias;
É tão simples como mudar de posto na telefonia.
Proponho que troquem convosco e acertem com a vida!
"

domingo, 28 de novembro de 2010

do Advento. da(s) esperança(s).



NATAL

Nasce mais uma vez
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens presépio
Mais agasalhado

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Miguel Torga, in Antologia Poética, 1999
Public. D. Quixote, Lisboa

domingo, 21 de novembro de 2010

parêntesis mais ou menos poético - paragem mais ou menos real

final de domingo. a decisão objectiva de uma paragem - querida, necessária - obrigatória. lá fora chove. algures nos sítios, nos corpos, nas ideias faz frio. muito frio.
suspendo os tempos das (pre)ocupações que roubam tempos ao tempo e confronto-me com uma estranha lucidez. clareza. secura. aquela que é própria de quem sabe nomear.
o homem ora diabolizado, ora adorado, na sua humanidade mais profunda. interessante.



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Mas qual é a verdadeira alegria?

no dia de S.Francisco, deixo aqui um texto a propósito da alegria, no qual tropecei há alguns anos e por onde gosto de ir parando. uma hipótese de compreensão luminosa para as situações de escuridão.

"Mas qual é a verdadeira alegria?

Regresso de Perúsia e venho para cá numa noite escura. Está um tempo de Inverno, lamacento e frio, a tal ponto que nas bordas de minha túnica se formam pingentes de gelo, batendo-me constantemente nas pernas, e das feridas jorra sangue.

E cheio de lama, de frio e de gelo, chego à porta e, depois de ter batido e chamado durante muito tempo, um irmão vem e pergunta: Quem é? Eu respondo: Frei Francisco. E ele diz: Vai-te embora. Não são horas de andar por aí. Agora não entras.

E àquele que insistisse ele responderia novamente: vai-te embora, não passas de um pobre e ignorante; seja como for não entras; somos tantos e tais que até nem precisamos de ti.

E eu estou de novo junto à porta e digo: Por amor de Deus, recebei-me esta noite. E ele responderia: Não. Vai para o asilo dos leprosos e pede lá guarida.


Afirmo-te que se eu tiver paciência
e não ficar abalado,
é nisto que reside a verdadeira alegria
e a verdadeira virtude
e a salvação da alma."


S. Francisco de Assis.

in, Quinze dias com S. Francisco de Assis, Frère Thaddée Matura, Paulus.

domingo, 26 de setembro de 2010

dos desafios. dos próximos tempos.

no ano lectivo passado, entre outras leituras, deambulei muito por aqui...
deixo o registo de umas passagens muito breves, daquele foi durante meses (e continua a ser) o objecto de provocação ou desafio espiritual. pedaços de História escritos e descritos na primeira pessoa, com uma intensidade avassaladora e subjectividade "objectiva" de quem se deixou "tocar" pela Vida, com toda a profundidade. e terá acordado definitivamente.
este ano vem a continuação, ou melhor, o meu primeiro tropeço (Cartas 1941-1943)


Da apresentação de DIÁRIO (1941-1943)de Etty Hillesum

«Foi novamente como se a Vida, com todos os seus segredos, estivesse próxima de mim, como se eu a pudesse tocar… E ali sentia-me imensamente segura e protegida. E pensei: «Como isto é estranho. É guerra. Há campos de concentração. Pequenas crueldades amontoam-se por cima de pequenas crueldades. Quando caminho pelas ruas, sei que, em muitas das casas por onde passo, há ali um filho preso, e ali um pai refém, e ali têm de suportar a condenação à morte de um rapaz de dezoito anos.» E estas ruas e casas ficam perto da minha própria casa.

Sei do grande sofrimento humano que se vai acumulando, sei das perseguições e da opressão… Sei de tudo isso e continuo a enfrentar cada pedaço de realidade que se me impõe. E num momento inesperado, abandonada a mim própria – encontro-me de repente encostada ao peito nu da Vida e os braços dela são muito macios e envolvem-me, e nem sequer consigo descrever o bater do seu coração: tão fiel como se nunca mais findasse…»


4ªfeira, 18 de Junho de 1941
«(…) A vida em si deve permanecer a fonte primitiva, nunca um outro ser. Muitas pessoas, especialmente mulheres, vão aí buscar a sua força, em vez de a irem buscar directamente à vida, é esse outro ser a sua fonte e não a vida. Isto é tão distorcido e tão antinatural quanto é possível.»


6ª feira, 5 de Setembro de 1941
«Sinto-me tal e qual como alguém recuperando de uma doença grave. Ainda com a cabeça leve e mal se tendo nas pernas. Ontem foi realmente péssimo. Creio que não vivo de modo suficientemente simples por dentro. Que me excedo em «digressões», em bacanais do espírito. Também pode ser que me identifique demasiado com tudo aquilo que leio e estudo. Alguém como Dostoiévski arrasa-me sem eu saber como. Preciso mesmo de me tornar mais simples. Deixar-me tornar um pouco mais viva. Não querer ver imediatamente resultados na minha vida. O remédio sei-o agora. É preciso que me encolha a um canto no chão, e assim, encolhida, escute o que se passa dentro de mim. A pensar nunca resolvo o assunto. Pensar é uma bonita e orgulhosa ocupação quando se estuda, mas não é a pensar que uma pessoa consegue «sair» dos estados de alma difíceis. Nesse caso, outra coisa tem de acontecer. Então deve ser-se passivo e escutar. Estabelecer outra vez contacto com um bocadinho de eternidade.»

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

o LIVRO. de José Luís Peixoto

De um escritor que muito admiro.

A emigração portuguesa como ponto de partida.

Uma crítica excelente.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

utilidades aos «comandantes» de si.

Cheguei nas «lonas». O cansaço polvilhado de receio e de consciência da dificuldade. A esperança no chão. Um fim-de-semana de lamento de mim para comigo... Com alguma disciplina e uma paragem "disciplinada", surgiu a pergunta óbvia: quem é que realmente "comanda" a minha vida, eu, ou tudo o que me é exterior?

Com a pergunta certa, a resposta vai-se tornando clara. Caminho traçado!
Vivi muitas vidas por estes dias. Na decisão, ou na clarificação do evidente, pude finalmente descansar e "voltar a casa"...


das minhas leituras de verão. das lições do fim-de-semana. muito interessante.

«Ao cozinhar, não olheis as coisas habituais com um olhar habitual, com pensamentos e sentimentos habituais. (…) se preparais um pobre cozido de ervas selvagens, que ele não vos inspire nenhum sentimento de desgosto ou desprezo, e se preparais uma rica sopa cremosa que o vosso coração não pule de alegria. Onde não existe apego, como pode haver hostilidade? Assim, quando vos ocupardes de uma matéria grosseira, não a trateis sem respeito; manifestai para com ela a mesma diligência e atenção que teríeis em presença de um objecto precioso. É importante que o vosso espírito não mude segundo a qualidade do objecto. (…)»

in, TENZO KYÔKUN - Instruções para o cozinheiro Zen. Assírio & Alvim (2010)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010